Em destaque

1923 — 1993

Natália Correia

Poetisa, Escritora e Deputada

"O dever de deslumbrar"

A Poetisa

Biografia

Natália Correia

Natália Correia, c. 1960

Natália de Oliveira Correia nasceu a 13 de setembro de 1923, na Fajã de Baixo, ilha de São Miguel, nos Açores. Em 1934, mudou-se para Lisboa com a mãe e a irmã, após o abandono do pai.

A sua vida foi marcada por uma intervenção política e cultural constante. Foi uma opositora feroz ao Estado Novo, o que a levou a enfrentar a censura em diversas ocasiões. O seu salão literário no bar Botequim, em Lisboa, tornou-se um ponto de encontro para as mentes mais brilhantes da época.

Como deputada à Assembleia da República (1980-1991), defendeu causas polémicas e fundamentais, como os direitos das mulheres, a cultura e a liberdade de expressão. Faleceu a 16 de março de 1993, em Lisboa.

"Uma mulher que, acima de tudo, viveu para deslumbrar."

Obras

Obras Principais

Poesia

  • Poemas

    1955

  • Dimensão Encontrada

    1957

  • O Vinho e a Lira

    1966

  • Mátria

    1968

  • O Dilúvio e a Pomba

    1979

  • Sonetos Românticos

    1990

Ficção

  • Anoiteceu no Bairro

    1946

  • A Madona

    1968

  • A Ilha de Circe

    1983

  • As Núpcias

    1992

Teatro

  • O Progresso de Édipo

    1957

  • O Encoberto

    1969

  • Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente

    1981

  • A Pécora

    1983

Antologias

  • Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica

    1965

  • Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses

    1970

  • O Surrealismo na Poesia Portuguesa

    1973

Nota histórica: A publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (1965) valeu a Natália Correia um processo judicial durante o regime do Estado Novo, tornando-se um símbolo da luta pela liberdade de expressão em Portugal.

Poema em Análise

"Do Amor Nada mais resta que um Outubro"

De amor nada mais resta que um Outubro

e quanto mais amada mais desisto:

quanto mais tu me despes mais me cubro

e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro

porque se mais me ofusco mais existo.

Por dentro me ilumino, sol oculto,

por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse

dos teus beijos. Etérea, a minha espécie

nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço

mais de terra e de fogo é o abraço

com que na carne queres reter-me jovem.

— in "O Dilúvio e a Pomba" (1979)

Interpretação

Neste soneto, Natália Correia explora a dialética entre a entrega e a resistência no amor. O verso inaugural estabelece o tom elegíaco: o amor reduzido a um "Outubro", mês de transição, de crepúsculo.

A estrutura paradoxal revela uma tensão entre o desejo de fusão amorosa e a preservação da identidade própria. O sujeito poético não se dissolve no outro; antes, encontra na resistência uma forma de existência mais plena.

Simbolismo do Outubro

O "Outubro" surge como metáfora de crepúsculo, de algo que resta após o auge — um amor que amadureceu mas que se aproxima do seu fim.

Estrutura Formal

O poema segue a estrutura clássica do soneto (duas quadras e dois tercetos), com rima interpolada. Esta forma tradicional contrasta com o conteúdo subversivo.

Temáticas

Temáticas Principais

O Erotismo e o Sagrado

A união entre o corpo e o espírito é central na obra de Natália. O erotismo não é mera sensualidade, mas uma via de acesso ao sagrado, uma forma de transcendência através da carne.

A Identidade Portuguesa

Uma reflexão mística sobre o destino de Portugal, influenciada pelo sebastianismo e pela tradição esotérica portuguesa. Natália via em Portugal uma missão espiritual por cumprir.

A Liberdade e a Mulher

A luta contra as convenções sociais e a afirmação do feminino. Natália foi uma voz pioneira na defesa dos direitos das mulheres, desafiando os tabus da sociedade portuguesa.

O Surrealismo e o Misticismo

A exploração do inconsciente e do oculto, herdada do movimento surrealista português. A poesia como porta para dimensões invisíveis da realidade.

Galeria

Imagens

Natália Correia com gato
Natália Correia - múltiplas poses
Natália Correia retrato
Natália Correia na Assembleia